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Você sabia o que sabe o sabiá?

Felizes são os sabiás dessa terra com cada vez menos palmeiras. Eles abrem o bico, a partir das 3 da madruga e, pela gana …

Felizes são os sabiás dessa terra com cada vez menos palmeiras. Eles abrem o bico, a partir das 3 da madruga e, pela gana do gorjeio, não estão nem aí para as falências e inadimplências nacionais, estragos sociais e naturais. São a própria tenacidade emplumada. 

Os sabiás, insistentes na primavera e persistentes no verão, ignoram o desânimo político da nação ou a apatia do seu povo às vésperas de novo vespeiro. Estufam o peito e, por um não-buscado contraste, soam vigorosos, como um decreto impondo imperiosa esperança. 

Você ali, alerta sob as cobertas, sem nem vestígios do amanhecer, e os sabiás comandam algo que eles – e nem você no seu íntimo – sabem que ainda existe para ser comandado. Você rola um pouco na cama, volta a adormecer. Até soar o infalível clarim dos sabiás outra vez, a aurora no tímpano. 

Esses sabiás, como diria um cronista menos cético que eu, talvez sejam as derradeiras sentinelas de tempos novos. Enquanto trinarem os sabiás, tudo estará bem. Nada irá piorar. Você deita com as derrotas do dia, pero, no aconchego das enxergas, espera pelo canto salvador dos sabiás. Que logo vem, em três ondas matinais, sucessivas, a intervalos de ressono. E sempre alto, sempre forte, sempre firme, o entusiasmante canto do sabiá. 

Que ave! Altiva, como nós em épocas menos desgovernadas. Auto-confiante, como você em tempos de mais iniciativas. Animada, como eu noutra cidade nesta mesma cidade. Quem sabe seja esse o ritmo que os sabiás tentam nos devolver: a retomada de nós mesmos, diante de nós mesmos, uns perante outros. Missão quase impossível, a dos sabiás. 

Sem ecos de cidadania ativa, ouvidos moucos às vergonhas, sonâmbulos sob o sol, murchos de engajamento, num auto-exílio da vontade, tudo o que nos resta são os sabiás. Acordar com eles, e por eles, reanimados e reativos, sem bocejo e sem a irritabilidade vinda dos extintos galos, isso sim seria recuperar alguma mínima determinação. Com seu canto em dois tempos, seu retinido acelerado e sua empolgada freqüência diária, o sabiá é um pássaro com brio de inflar homens. 

Trinitroantes de galho em galho, ferrenhos de bairro em bairro, otimistas de cidade em cidade, alvissareiros de estado em estado, os sabiás podem levantar o país, já que quero-queros, joões-de-barro e bem-te-vis cantam pra si mesmos. Não sabem mandar recados como sabem os sabiás. Para um Brasil quase sem símbolos e valores respeitáveis, há que respeitar o simbólico sabiá. 

Se voar é com os pássaros e cantar teimosamente é com os sabiás, reagir é

com o ser humano. Melhor aguçar os ouvidos a cada alvorecer. 

(Texto publicado em 11/9/06. Republicado a pedido dos emplumados)

 

DAS DUAS, UMA:

 OU O MENSALÃO VAI DAR EM NADA

OU VAI DAR EM MENOS QUE ISSO.

 

Enquanto Obama ganha cabelos brancos,

os países ameaçados de invasão arrancam os cabelos

e as nações espionadas ficam de cabelo em pé.

 

Já que os políticos brasileiros continuam

 mascarados nas câmaras do país,

não há como impedir as máscaras nas ruas.

 

 

BUGIGANGAS SORTIDAS

 

Atualmente todo mundo se mobiliza.

Exceto os imobilizados no tráfego.

O culto a celebridades depende de um órgão que

nem todos os humanos possuem – o célebro.

Todo dia, em toda a cidade,

assaltantes roubam alunos na saída das escolas.

Mas o policiamento não aprende nem apreende.

Ao redor, a picaretagem é cada vez maior:

agora, até os operários manejam mal as picaretas.

O governo tem pressa em colocar os médicos

estrangeiros para trabalhar. Até simplificou a aprovação,

com três perguntas apenas:

Como é seu nome? Qual a sua nacionalidade?

Em que data você nasceu?

O céu de ontem esteve lindo sobre nossas cabeças,

nem parecia ter um buraco de ozônio lá em cima.  

A raiva deve ser fonte de vitaminas e sais minerais.

Ou os raivosos não seriam sempre os mais fortes. 

Casamentos agora duram pouco e se desgastam logo.

Vão-se as bodas de prata e ouro, vêm as de sucata e ferro-velho.

Persistindo os sintomas,

o dinheiro da consulta deverá ser devolvido ao paciente.  

As quatro estações do ano são as seguintes:

split, guarda-chuva, edredon e ventilador.

Autor

Fraga

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