Por Gabriele Afonso
Que rir é o melhor remédio para curar os males da vida todos sabem. Entretanto, será que para fazer rir requer cálculos? Pois então, é assim que entende o professor de Matemática e Física André Damasceno. Exatamente. O humorista, conhecido por criar e interpretar o personagem ‘Magro do Bonfa’, não imaginou que a sala de aula seria o primeiro palco da sua carreira. Em meio ao giz e à fórmula de Bhaskara (utilizada na resolução de equações de segundo grau), aflorou no jovem professor algo que havia iniciado aos oito anos, a arte de imitar e fazer as pessoas rirem.
A primeira performance veio através de um desafio feito pela avó paterna, que, assim como o pai de André, possui o dom da imitação. Cada neto deveria imitar o comediante Usliver João Baptista Linhares, mais conhecido como ‘Tutuca’, que tinha como personagem um lixeiro assanhado que usava o bordão: “Ai, se ela me desse bola!”. André ganhou a competição, e, aos 11 anos, pediu de aniversário um gravador de voz, com a intenção de melhorar as suas imitações, embora, ali, ainda não passasse pela cabeça que poderia seguir a carreira de humorista.
Formado em Engenharia Civil pela PUC, em 1982, André trabalhou na Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), por dois anos e logo passou a dar aulas particulares. Por ter ajudado a filha a vencer o ano letivo, a mãe de uma aluna o convidou para dar aula no colégio São José. Uma nova forma de ensinar a temida matemática chamou a atenção dos alunos e da concorrência. A convite da equipe do curso pré-vestibular Universitário, André mudou de endereço, mas não a forma de dar aula. Seguindo os passos do professor Édison de Oliveira, pioneiro no Estado por ministrar as chamadas ‘aulas shows’, começou a fazer piadas ao final de cada aula, ganhando, assim, um público cativo.
Natural de Porto Alegre, André divide sua morada entre a Capital e o Rio de Janeiro, onde é contratado da Rede Globo há sete anos. Mudanças foram constantes em sua vida, já que o pai, Cláudio, é militar e foi transferido muitas vezes. Casado há 22 anos com a ex-aluna Maria Dariele, não tem filhos, mas diz que aproveita ao máximo a convivência com os sobrinhos, filhos dos três irmãos – Cláudio, Lígia e Vinícius.
A mudança de palco
A passagem pelo Universitário foi decisiva para dar o pontapé inicial na carreira. Por incentivo dos mais de mil alunos, André começou a se apresentar nos bares da Capital com o personagem que posteriormente viria a encantar o humorista Chico Anysio. O ‘Magro do Bonfa’ foi criado para as apresentações feitas em sala de aula, e é baseado nas características dos jovens que frequentavam o bairro Bom Fim nos anos 1980 e 1990. Os conhecidos bares Opinião, Ocidente e Escaler foram os primeiros palcos. No início, eram apresentações de apenas 10 a 15 minutos, e por elas não recebia nada. “Era somente uma canja do meu trabalho”, ressalta o humorista.
Assim como na sala de aula, os estudantes formavam um público assíduo nos shows do professor. “Onde eu estava lotava, os alunos levavam a família toda. Foi assim que comecei a fechar contratos com empresas e clubes”, relembra. A estreia no teatro veio com o espetáculo ‘O Sotaque das Ideias’, em 1987, no Teatro do Ipê, onde fazia caricaturas de diversos personagens, através da voz e texto próprio. Durante quatro anos conciliou a sala de aula com os demais palcos, até que em 1990 passou a se dedicar apenas ao humorismo.
Com intuito de virar figura nacional, já que o Estado começara a ficar pequeno para seus objetivos, o humorista partiu para São Paulo e Rio de Janeiro. Com fitas embaixo dos braços e uma enorme vontade de vencer, bateu de porta em porta nas emissoras, até que recebeu um telefonema do próprio Chico Anysio, convidando-o para um café em sua casa. O resultado foi que vingou nacionalmente o ‘Magro do Bonfa’, após sua estreia no programa ‘A Escolhinha do Professor Raimundo’, em agosto de 1993.
A convivência com os grandes humoristas é a melhor lembrança. “Falo nos shows que a grande emoção não é estar na Globo, e sim ter conhecido a velha-guarda do humor”, afirma. O professor se transformou em estudante, pois foi assim que André se sentiu ao conviver com humoristas que estavam na estrada havia mais de 30 anos. No final do mesmo ano ganhou o prêmio de destaque da emissora, onde os votantes eram os próprios funcionários. O programa saiu do ar em 1995, quando André partiu para a rádio, com onde teve passagens pelo Pânico, na Jovem Pan; e no programa de Haroldo de Andrade, na Rádio Globo.
Aprendizado constante
O retorno para a TV aconteceu em 1999, mas na Rede Record, onde o humorista levou o ‘Magro do Bonfa’ para o programa ‘Escolinha do Barulho’. Foi a oportunidade de voltar a estar perto dos grandes nomes do humor, como Jorge Loredo, que interpreta o ‘Zé Bonitinho’. “Sempre gostei das pessoas mais velhas por gostar da história do humor”, diz André. Quatro anos depois, recebeu o convite para participar do programa ‘Zorra Total’, da Rede Globo, dessa vez interpretando o ex-presidente Lula. Foi correndo, claro.
Estar próximo de grandes humoristas mostrou para André que o improviso não faz parte de um bom show. Com ares de professor, explica que há técnicas certas para contar uma piada. Ritmo, entonação, pausa, além do tempo entre uma risada e outra, tudo deve ser calculado. Sobre esse aspecto, lembra de um fato interessante que aconteceu com o humorista Costinha. Ao chegar para gravar, André se depara com o colega lendo o roteiro, e espantado pergunta o que ele estava fazendo. Com calma, Costinha explicou que estava estudando o tempo e a entonação. Surpreso, André perguntou o que era tudo isso. “Ele me olhou e disse: ‘Como assim, tu não sabe?’. Era a hora de começar a aprender!”, lembra.
André também analisa os rumos que o humor tomou no País, e acredita que há um erro de classificação. “Todos no Brasil são chamados de humoristas. Humorista é aquele que escreve textos de humor. Nos Estados Unidos as categorias já são bem determinadas”, explica. As turnês pelo País também são uma forma de aprendizado, e para cada região André monta um show diferenciado, respeitando vocabulário e ritmo de percepção de cada público. “Nunca improvisei. Chico Anysio falava que o improviso é a menor distância até o erro. Quer errar, improvisa”, ensina.
Para ele, o humor é uma obra inacabada, que se aprende a cada apresentação. “Teoricamente, devo ser mais engraçado a cada ano porque tenho a chance de modificar aquilo que já não faz mais o público rir tanto. O humorista não pode ter medo que o público não vai rir. Não riu, modifica o texto”, ressalta.
André por André
Filho do militar Cláudio e da dona de casa Aldira, André foi uma criança peralta. Implicava com os irmãos, tinha preguiça de estudar, até que rodou no segundo grau e resolveu que era o momento de se tornar responsável. Terminou o colégio como um dos primeiros da turma e logo iniciou a faculdade. Rígido, o pai não aceitou quando o filho largou o emprego formal, para se tornar humorista. “Ele só acreditou quando assinei contrato com a Rede Globo”, lembra.
Mesmo nos momentos dedicados ao lazer, André mescla suas características de humorista e de professor, isso porque gosta de ir ao teatro, ver peças humorísticas, e adora jogar xadrez pela internet. Fora isso, seus hobbies são andar de bicicleta e ir ao cinema. Para ler, aprecia as obras de Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Woody Allen e Mel Brooks. Sobre uma possível volta para a sala de aula, deixa claro que isso não deverá acontecer, embora confesse que ainda sonha que está dando aula. “Dar aula é uma cachaça, sou viciado!”, brinca.
Além da TV e dos shows, o humorista lançou em 2010 o projeto ‘Quinta Alegre’, no Teatro Bourbon Country. Toda primeira e segunda quinta-feira do mês dividia o palco com uma personalidade do humor nacional. Parte do elenco do programa Zorra Total esteve presente: Katiuscia Canoro, que interpreta a ‘Lady Kate’; Athayde Arcoverde, que interpreta o ‘Salsichão’; Nelson Freitas; e Paulo Silvino. O objetivo era unir grandes nomes da velha-guarda com os novatos.
Mesmo com tantos anos de estrada ainda se emociona ao pisar no palco e adora de estar na TV, que respeita como um instrumento eficaz para mantê—lo na vitrine e, consequentemente, na mídia. Ao se definir, utiliza algo que o falecido ator Paulo Autran dizia: “Quando as pessoas chegavam e falavam para ele que já haviam sido melhores, ele logo as corrigia e dizia que apenas estamos mais exigentes, e que o conhecimento proporciona a lucidez para alcançarmos novas metas”. Isto posto, completa a máxima que segue à risca: “Por isso, procuro ser melhor a cada dia”.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial