
Aquela foi a primeira vez que visitei Gramado, levado pelas mãos generosas do casal Carlos e Olga Reverbel. Era um refúgio europeu aos calores de Porto Alegre, onde se praticava a hospitalidade e se desfrutava da verdadeira comida colonial. Se respirava um ar de segurança e tranquilidade, rarefeito na cidade grande, ouvindo a gabolice dos amigos gramadenses:
“- Aqui a gente esquece de trancar
a porta da frente e dormimos de janela aberta…”.
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Eu segurava dois empregos – como repórter da Folha da Tarde e redator em uma minúscula – e premiada – agência de publicidade. Não lembro como, eu ainda encontrava tempo para escrever um programa semanal de cinema na Rádio da Universidade Federal. O que me fazia assíduo frequentador das pré-estréias de meia-noite.
Foi em uma data no final de 1972, que chegou na agência o pedido da Caixa Economica Federal para um evento cultural com potencial para gerar cobertura de mídia. Botamos as cabeças a trabalhar:
” Um festival de Shakespeare no São Pedro?”.
Não havia datas disponíveis.
” Uma semana de filmes inéditos em Porto Alegre?”
Negativo. Nenhum dos grandes cinemas mostrou vontade de abrir mão da bilheteria para um evento cultural.
” Uma exibição de artes plásticas?
Mataram na hora – alegou-se que Arte não chama público nem produz noticiário. Mas surgiu a idéia de uma mostra de filmes nacionais em cidade do Interior dotada de cinema com boa projeção e hotelaria à altura de um evento nacional. As primeiras cidades citadas: Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo. Então, lembrei do ex-colega Romeu Dutra, que era Secretário e Turismo em Gramado. Com toda a certeza apoiaria e faria acontecer um festival de cinema na cidade .
Uma visita ao Correio do Povo foi outro golpe de sorte – o padrinho Paulo Fontoura Gastal, editor da página de Arte, Cinema e Teatro, não só aprovou a idéia, como se prontificou fazer contato com as distribuidoras de filmes em Rio e São Paulo. Naquele mesmo dia, o gerente comercial Alcides Gomes fez a proposta de patrocínio que foi aprovada pela Caixa Econômica. Estava nascendo o Festival de Cinema de Gramado.
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Foi uma correria das boas – apresentar o projeto à Prefeitura de Gramado, contatar e fazer convites a mais de uma centena de produtores, diretores, atrizes e atores. Alguns aceitaram na hora e com entusiasmo, como os gaúchos José Lewgoy, Paulo César Pereio e Lilian Lemmertz.
Tudo acertado, os astros e estrelas começaram a chegar, recebidos com flores e música no Aeroporto Salgado Filho e no novo Hotel Serra Azul em Gramado: Nelson Pereira dos Santos, Walter Hugo Khouri, Arnaldo Jabor, José Wilker, Ruth de Souza, Ana Maria Magalhães…Que foram, desde aquela semana de 10 a 14 de janeiro de 1973, a grande atração para multidões de espectadores, fans e curiosos.
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No entanto, muito da imagem de glamour do Festival de Gramado deve ser creditada à figura risonha do Deus do Bom Humor, a icônica imagem criada pela inesquecível Elisabeth Rosenfeld. Que em uma entrevista à Folha da Tarde anteciparia que por obra e graça do deus Kikito, o Festival teria sempre sucesso. Ela estava certa.
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