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Um certo sorriso

Aquela foi a primeira vez que visitei Gramado, levado pelas mãos    generosas do casal Carlos e Olga Reverbel. Era um refúgio europeu aos calores de Porto Alegre, onde se praticava a hospitalidade e se desfrutava da verdadeira comida colonial. Se respirava um ar de segurança e tranquilidade, rarefeito na cidade grande, ouvindo a gabolice dos amigos gramadenses:

“- Aqui a gente esquece de trancar

a porta da frente e dormimos de janela aberta…”.

***

Eu segurava dois empregos – como repórter da Folha da Tarde e redator em uma minúscula – e premiada – agência de publicidade. Não lembro como, eu ainda encontrava tempo para escrever um programa semanal de cinema na Rádio da Universidade Federal.    O que me fazia assíduo frequentador das pré-estréias de meia-noite.

Foi em uma data no final de 1972, que chegou na agência o pedido da Caixa Economica Federal para um evento cultural com potencial para gerar cobertura de mídia. Botamos as cabeças a trabalhar:

” Um festival de Shakespeare no São Pedro?”.

Não havia datas disponíveis.

” Uma semana de filmes inéditos em Porto Alegre?”

Negativo. Nenhum dos grandes cinemas mostrou vontade de abrir mão da bilheteria para um evento cultural.

” Uma exibição de artes plásticas?

Mataram na hora – alegou-se que Arte não chama público nem produz noticiário. Mas surgiu a idéia de uma mostra de filmes nacionais em cidade do Interior dotada de cinema com boa projeção e hotelaria à altura de um evento nacional. As primeiras cidades citadas: Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo. Então, lembrei do ex-colega Romeu Dutra, que era Secretário e Turismo em Gramado. Com toda a certeza apoiaria e faria acontecer um festival de cinema na cidade .

Uma visita ao Correio do Povo foi outro golpe de sorte – o padrinho Paulo Fontoura Gastal, editor da página de Arte, Cinema e Teatro, não só aprovou a idéia, como se prontificou fazer contato com as distribuidoras de filmes em Rio e São Paulo. Naquele mesmo dia, o gerente comercial Alcides Gomes fez a proposta de patrocínio que foi aprovada pela Caixa Econômica. Estava nascendo o Festival de Cinema de Gramado.

***

Foi uma correria das boas – apresentar o projeto à Prefeitura de Gramado, contatar e fazer convites a mais de uma centena de produtores, diretores, atrizes e atores. Alguns aceitaram na hora e com entusiasmo, como os gaúchos José Lewgoy, Paulo César Pereio e Lilian Lemmertz.

Tudo acertado, os astros e estrelas começaram a chegar, recebidos com flores e música no Aeroporto Salgado Filho e no novo Hotel Serra Azul em Gramado: Nelson Pereira dos Santos, Walter Hugo Khouri, Arnaldo Jabor, José Wilker, Ruth de Souza, Ana Maria Magalhães…Que foram, desde aquela semana de 10 a 14 de janeiro de 1973, a grande atração para multidões de espectadores, fans e curiosos.

***

No entanto, muito da imagem de glamour do Festival de Gramado deve ser creditada à  figura risonha do Deus do Bom Humor, a icônica imagem criada pela inesquecível Elisabeth Rosenfeld. Que em uma entrevista à Folha da Tarde anteciparia que por obra  e graça do deus Kikito, o Festival teria sempre sucesso. Ela estava certa.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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