Neste ano o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião completa 20 anos! Ao longo destes anos monitoramos as mudanças do comportamento do eleitor, em especial, o acirramento do descrédito e do ceticismo da população e a percepção de que a corrupção é endêmica.
No final da década de 90, um terço dos eleitores acreditavam na premissa do candidato que “rouba, mas faz”. Neste novo milênio, a grande maioria parte do pressuposto de que os políticos “roubam e não fazem”. Este raciocínio é aprofundado em simulações realizadas nos grupos focais, que projetam a possibilidade de os eleitores se tornaram representantes do povo, e estes, em sua maioria, afirmam que se tivessem a oportunidade “fariam as mesmas coisas” das quais reclamam, diante da justificativa de que a política “é troca de favores”.
Na visão dos eleitores, os políticos disputam pleitos para garantir o poder da “trocar favores”: de indicar cargos de confiança, conseguir vagas de trabalho para amigos e familiares ou benefícios pessoais com empresários. Esta leitura sobre a “troca de favores” percebe a política como algo pessoal, onde os interesses individuais estão acima do bem comum.
É sabido que o cerne deste dilema se encontra no conceito de reciprocidade. Este conceito, que pode representar sentimentos, pois, a reciprocidade é uma característica essencial na amizade e dos relacionamentos amorosos, também pode ser analisado na ótica da política, de serviços ou até mesmo nos tratados de reciprocidade entre estados.
E é a reciprocidade que movimenta o “modo de navegação social” do “jeitinho brasileiro”, através das redes de relacionamento que se estabelecem na política, fato que antecede as redes sociais. As análises destas redes revelam a base de coesão das sociedades e fornecem uma compreensão da relação do indivíduo para com a sua sociedade e do seu funcionamento nessa mesma sociedade.
No princípio da reciprocidade destaca-se a “pessoa” e não o “indivíduo”; a pessoa envolve o status, ocorre uma troca que é personalizada por uma pessoa moral. E dentro deste princípio existem diferentes tipos de trocas, que são legitimadas como “algo natural”, que faz parte do dia a dia. No princípio da reciprocidade é onde ocorre a fusão entre a representação e a mediação, que espera dos políticos a “atividade de despachantes”.
Pelo ideal da democracia, as relações devem levar em conta que as identidades sejam estabelecidas por critérios políticos ou partidários. Mas, na cultura política brasileira, as relações são baseadas em elos pessoais de reciprocidade, e a forma como os indivíduos concebem a sua existência social e respondem aos estímulos que recebem do meio em que vivem influencia as suas escolhas.
Diante deste cenário, operações como Lava-Jato, acirramento da legislação ou do sistema de punição não darão conta dos males causados pela reciprocidade na política. Faz-se necessário o fortalecimento das instituições sociais e dos partidos políticos que devem priorizar um debate aprofundado sobre a cultura política “que temos e que queremos”.
O comportamento, baseado na percepção pessoal, é reflexo da forma como a política está estruturada. Os eleitores comportam-se desta maneira não necessariamente por opção política, mas utilizam-se das ferramentas que estão disponíveis. Quando realizam suas escolhas, baseados em princípios de juízo moral, apenas terminam por reproduzir as relações de reciprocidade que são estabelecidas historicamente na sociedade brasileira.
