Em uma democracia, por princípio, a “palavra” se impõe e quem domina a “palavra” domina a cidade, a igreja, a escola, a família, etc. Nesta atmosfera há necessidade de saber convencer: “de que esta ideia ou opinião é melhor do que aquela”. Quem domina o discurso transmite a percepção de que “sabe tudo”; pode até saber pouco, mas precisa saber o suficiente para ser persuasivo.
Para testar ou driblar a persuasão, a pergunta reflexiva, o questionamento deveria existir e buscar sempre uma resposta, sobre “o que está se dizendo”, sobre “o que está se fazendo”! Como os gaúchos dizem: “não pode haver distinção entre o que se diz e o que se faz”.
Sem a pergunta reflexiva, cada indivíduo sustenta uma percepção, uma leitura com base em um argumento, um conceito de verdade que é uma estrutura mental que acompanha o desenvolvimento do discurso, da comunicação, das informações recebidas e processadas no bojo do juízo de valor de cada um.
Este conceito sustenta uma verdade e alicerça a premissa de que a única verdade é que a verdade não existe. Como a verdade está contida em um conceito, e como existem “n” conceitos, existem “n” verdades. Esta premissa abala as certezas, e as certezas que mantém a zona de conforto dos indivíduos não deveriam ser desestruturadas sob pena de aumentar o stress cotidiano. Cada fato social passa pela “palavra”, por uma reflexão do indivíduo, e é preciso que os fatos sejam compreensíveis para quem não os viveu.
Avançando na reflexão de base platônica, sobre “o que está em jogo”, chegamos ao axioma da dialética que apregoa que “não há nenhuma razão para que a maioria tenha razão”. Ora a maioria ganha, ora a maioria perde!
E a opinião pública gaúcha sente este dilema, vive com a percepção de que existe uma maioria que aprova, o que a maioria reprova. E esta “certeza incerta” mantém a população na labuta cotidiana e mantém aflorado o sentimento da “cordialidade”, que permite suportar o insuportável.
Na tomada de decisão, cada um vê as coisas através do seu próprio prisma. Cada um constrói o seu entendimento sobre os fatos, a sua realidade. Esses entendimentos são construídos pelas paixões, pelos desejos ou até mesmo pelos interesses. Então, a decisão resultante desse entendimento não é necessariamente verdadeira, mas por essência constrói a base da opinião pública.
Para a democracia avançar, a cidadania se constituir e as certezas dos indivíduos e da opinião pública sobre a política se tornarem salutares, é necessário que haja a distinção entre as principais dicotomias que devem diferenciar a esfera privada da pública:
Opinião ? conceito;
Aparência ? essência;
Doxa ? episteme;
Emoção ? razão (logos);
Pessoal ? impessoal;
Privado ? público.
Com definição conceitual destas distinções pela opinião pública e agentes públicos e a constituição clara do conceito de “bem comum”, ter-se-á as separações operacionais entre o privado (pessoal) e o público (impessoal). Com a separação destes conceitos no modus operandi da população e dos gestores públicos, a “palavra” se constituirá como elemento básico da democracia, se torna um agente desburocratizador do sistema e facilitador da deliberação e qualificação das políticas públicas. Sem contar que a “palavra” nutre a tolerância, o respeito à diferença que deve constituir a base da convivência familiar a social.
O diálogo deve ser realizado respeitando as diferenças culturais, religiosas, étnicas. E é o diálogo que advém da “palavra” que oferece a possibilidade de operar o desejo da sociedade: “que a palavra empenhada seja cumprida” e que o serviço público atue em benefício do “bem comum”.
