Colunas

Atenção: notícia importante

      O número de fatos irrelevantes divulgado pela mídia é tão expressivo que os veículos deveriam adotar um selo (ou vinheta, jingle etc.) para destacar …

      O número de fatos irrelevantes divulgado pela mídia é tão expressivo que os veículos deveriam adotar um selo (ou vinheta, jingle etc.) para destacar aqueles que realmente importam para o público. A inscrição “Atenção: notícia importante” soaria estranha, em princípio, mas acabaria fazendo sentido. Quando adotou o lema “todas as notícias que merecem ser publicadas”, o New York Times, o jornal mais importante do mundo, certamente imaginava levá-lo à risca, e a verdade é que sempre procurou fazê-lo, o que não é o caso da maioria. Mas mesmo o velho e bom NYT sempre se verá diante de um dilema que atormenta as redações: o que é importante?

      Se adotarmos a definição clássica passaremos a divulgar apenas guerras, decisões de governos e descobertas da medicina. Mas quem disse que a cultura ou o lazer não são importantes na vida das pessoas? Mesmo dentro de determinado segmento, tudo é muito relativo. Críticos adoram incluir nas listas dos filmes mais importantes do século XX títulos que colocam o espectador a nocaute em poucos minutos, e invariavelmente deixam de fora outros que levaram um pouco de alegria a milhões de pessoas ao redor do mundo. E ainda que se chegasse a uma conclusão sobre os critérios do que é importante de modo geral, esbarraríamos no gosto individual. Minha lista dos principais filmes seria detonada pelos críticos, mas e daí? Este ou aquele é importante para quem, cara-pálida?

      Como os veículos precisam do público, e não é só pelo lucro, como insistem portadores de discursos arcaicos, mas porque não haveria qualquer sentido em escrever, fotografar, falar ou filmar para que ninguém tomasse conhecimento, é preciso também encontrar o equilíbrio entre o importante e o interessante. Eu trabalhava em Brasília quando foi votada a nova lei da empregada doméstica, mas havia viajado e, na volta, fiz um bate-bola com o repórter. Eu havia considerado a cobertura chata, e ele me perguntou qual seria a forma de torná-la atraente. Sempre ressaltando que é fácil falar no dia seguinte, sugeri que, na próxima, em vez de publicar um texto imenso sobre a votação e um box sobre a empregada da Benedita da Silva, autora do projeto, poderíamos simplesmente inverter: um texto maior sobre a expectativa da empregada, torcendo duplamente pela aprovação do projeto da patroa junto ao rádio ou à TV enquanto cumpria as tarefas da casa, e um box com o burocrático resultado da votação.

      A equação não é tão simples, eu sei. Há poucos dias, os cientistas Jon Giorgini e Steve Ostro, da Nasa, afirmaram que um asteróide com mais de um quilômetro de diâmetro pode se chocar com a Terra neste milênio. A possibilidade é de uma para 300. Caso ocorra, poderá exterminar boa parte da vida no planeta, inclusive a espécie humana, numa destruição semelhante à registrada há 65 milhões de anos, quando os dinossauros foram extintos. O possível fim do mundo já tem data: 16 de março de 2880.

      Como a trajetória do asteróide é imprevisível, ele bem pode passar de raspão. Também é possível que até lá desenvolvamos um sistema de defesa planetária capaz de destruir o objeto a distância segura ou desviá-lo para outras paragens. Além disso, seriam atingidos nossos tatatatatatatatataranetos, os quais não terão de nós a mais remota lembrança. Mas, enfim, poderia ser o fim da espécie, e é impossível não se importar com isso. Classificaríamos tal notícia como importante, interessante ou ambas? Seja qual for a resposta, o destaque dado pela mídia a fatos do gênero nunca é proporcional ao evento. Enquanto isso, se fica sabendo de coisas absolutamente irrelevantes com grande intensidade e freqüência.

      É difícil estabelecer parâmetros adequados, mas é para isso que existem os jornalistas, para apurar, decidir e publicar. O importante é nunca nos esquecermos disso. Como sempre me dizia o Aluízio Maranhão ao final do expediente, disposto a incutir um certo complexo de culpa no subordinado que se retirava (na brincadeira, é claro), “o preço do jornalismo é a eterna vigilância”.

———

      Não posso deixar de saudar a presença de Deonísio da Silva nos artigos da semana. Autores de tal quilate qualificam o site. E os leitores merecem.

Dedicado a Aluízio Maranhão

([email protected])

Autor

Eliziario Goulart Rocha

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.