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Drummond

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“É um poeta que atravessa o tempo 

sem desgastes, livre de rugas e de pátina. 

Deve ser descoberto e redescoberto indefinidamente”. 

Humberto Werneck, biógrafo.

***

Há 120 anos, no 31 de outubro de 1902, nascia em Itabira, Minas Gerais, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Após alguns anos em Belo Horizonte, se transferiu para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1987. Escreveu para jornais, mas o dinheiro que ganhava vinha de charges, não de sua poesia. Drummond não gostava de viajar, não conheceu o mundo, no entanto, sua poesia do cotidiano se tornou cosmopolita e mais atual do que nunca.

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Quem trabalha em jornalismo ou publicidade não escolhe suas missões. Algumas serão difíceis ou mesmo ingratas, mas outras, gratificantes e enriquecedoras. Como conhecer de perto grandes figuras de nosso tempo. Aconteceu comigo em 1977, em um apartamento de classe média, na Zona Sul no Rio de Janeiro. Ali, ao longo de vários dias, convivi com um homem afável, retraído e quase monossilábico – o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Eu fazia a entrevista para um jornal de Porto Alegre, como uma celebração aos 75 anos do poeta. Mas havia outra missão quase impossível – vender o projeto de uma antologia de seus poemas para a coleção fora-do-comércio que eu editava para a minha agência, a MPM Propaganda. Ele ouviu em silêncio que seria uma edição limitada de 5.000 exemplares, titulada ‘Discurso de Primavera e Algumas Sombras’, com ilustrações de seu amigo baiano Carybé. Todos os detalhes haviam sido acertados com o livreiro que detinha os direitos editoriais; mas ainda faltava o principal – a concordância do poeta, que deveria escolher os poemas para compor a antologia.

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Drummond demorou mais tempo para se decidir do que eu havia imaginado. Ele examinou o boneco, o desenho da capa, folheou as páginas em branco que esperavam seus poemas. Pensou, coçou a cabeça e finalmente sorriu brevemente, um sinal que a ideia lhe era agradável. Quando falou, pediu alguns dias para escolher as poesias. Três dias depois fui reencontrar o poeta, mas muito egoisticamente, “esqueci” de avisar a agência e a editora que Drummond havia abençoado o projeto. Simplesmente, não queria compartilhar com outros o encantamento de estar com o poeta. Ele já havia escolhido os poemas. No capítulo inicial, ‘Notícias do Brasil’, poemas sobre cidades mineiras e o rio São Francisco. Em ‘Os Marcados’, versos sobre seus amigos Candido Portinari, Pedro Nava, Manuel Bandeira, Emiliano Di Cavalcanti e Erico Veríssimo.

 

Nos demais capítulos, Drummond incluiu poemas inéditos dos tempos mineiros – versos sobre Chico Rei, Inconfidência, Vila Rica e Ouro Preto. A contagem era de 46 poemas, o suficiente para uma antologia de 180 páginas. Missão cumprida, mas o poeta ainda tinha algo a acrescentar. Examinou uma vez a capa do livro, falando que queria um poema para justificar o título ‘Discurso de Primavera…’. Foi quando tomou da caneta, riscou o título de um dos poemas e reescreveu: “E aconteceu a Primavera”. Acrescentando mais  dois versos ao final:

 

“Primavera, fiz um discurso?

Primavera, tu me perdoas?”.

 

Aquele era Carlos Drummond de Andrade.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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