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Gordos devem permanecer calados

      Aconteceu na semana passada, mas não resisto à tentação de comentar. Diego Maradona, cujo futebol foi brilhante, mas cuja língua sempre exibiu igual desenvoltura, …

img src=”fotos/coluna_eliziario_09_07.jpg” align=”right” border=”1″>      Aconteceu na semana passada, mas não resisto à tentação de comentar. Diego Maradona, cujo futebol foi brilhante, mas cuja língua sempre exibiu igual desenvoltura, tentou reduzir o impacto do penta brasileiro desqualificando a Copa do Japão e da Coréia. Normal, e até compreensível diante do fracasso argentino na primeira fase. Ao anunciar a notícia no Jornal Nacional, William Bonner começou sua fala com a seguinte frase: “Maradona, que está gordo como uma bola, disse que…”

      Fiquei imaginando o momento em que ele teve a brilhante idéia: “Gordo, bola, Copa do Mundo…” O mundo é uma bola, digo eu. O Bill Bonner também. Lembrei-me do Jô Soares quando conta uma piada e ninguém ri. Ele se dirige à platéia e fala: “Acho que vocês não sacaram. Vou contar de novo. É assim, ó, gordo, bola, Copa, entenderam agora?”

      Além do trocadilho banal, o que me espantou mesmo foi o sempre politicamente correto JN escorregar feio no preconceito. Quer dizer que gordos não têm direito a emitir opiniões? Como diria vovó, o que tem a gordura a ver com as calças? E quem é o apresentador para dizer quanto o telespectador deve pesar? Os milhares de gordos que assistiam ao noticiário devem ter se emocionado com tal demonstração de respeito.

      Maradona é falastrão, arrogante mesmo, mas o seria da mesma forma se exibisse corpinho de bailarino espanhol. Como não há qualquer explicação para a estapafúrdia chacota em horário nobre, devo concluir que o âncora simplesmente não gosta de gordos. Deve achar que homens como Jô Soares, dotado não apenas de maior quantidade de gordura, mas também de muito neurônios a mais do que ele, não deveriam ter um programa diário na TV. Afinal, gordos não devem dar palpites, na opinião do autor do trocadilho. Ou vai ver que eu tenho neurônios a menos e não entendi a saudável brincadeira.

      Não se trata de condenar anedotas baseadas em estereótipos (embora me desagradem), pois nesse caso teríamos de vetar a maioria dos programas de humor, inclusive os considerados modernos, como o Casseta e Planeta. A questão é que, no caso do JN, a frase foi gratuita e sem graça. Preocupo-me com os meus eventuais quilos a mais. Os do Maradona são problema dele. De fato, para quem foi um deus dos gramados, a silhueta de Dom Diego deixa muito a desejar, mas isso continua não tendo qualquer relação com o que ele diz ou deixa de dizer. Quem sabe daqui a algumas semanas o apresentador se dê conta e fale: “Acho que vocês não sacaram. Vou contar de novo. É assim, ó, gordo, bola, Copa, entenderam agora?”

Dedicado a Ariovaldo Bonas

([email protected])

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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