Analisar o cenário social do Rio Grande do Sul, a partir dos dados de pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião ao longo do ano de 2015, subsidia o entendimento sobre os dilemas da opinião pública gaúcha e os temores em relação à crise econômica, política e social. A crise social pode ser entendida como uma crise de confiança nas instituições, de aumento do individualismo e de diminuição do sentimento de comunidade. Esta crise social está “ancorada” na percepção da população sobre a situação econômica e política do país e tem sua origem na cultura política da população. Uma cultura de não participação política e que coloca em xeque o principal esteio da democracia.
A crise social também pode ser analisada sob a égide de uma crise de ética e de credibilidade. O “jeitinho brasileiro” que sempre rodeou as relações sociais e “disfarçou” o conceito de corrupção está sendo questionado!
A indignação da população é percebida nos mais variados campos das relações sociais, transcendendo o mundo da política. O eleitor indignado é o mesmo consumidor que se sente ultrajado. O consumidor ultrajado é o mesmo cidadão desrespeitado, o mesmo cidadão desrespeitado é o mesmo chefe de família frustrado. Todos em um único ser e com um único dilema, encontrar a “constituição reta”. A constituição reta é por princípio o que deveria ser! O que foi deliberado, o que foi definido e precisa ser cumprido! É a base do “contrato social”.
Há uma “onda de moralidade” insurgindo no âmago de um descrédito exacerbado com a política e com os políticos, na insatisfação com produtos e serviços praticados “por alguns mercenários” do mercado, na impotência com o aumento da insegurança pública e no temor de uma recessão econômica.
Do ponto de vista prático, esta “onda de moralidade” aparece nas frases mais simples e até nas mais rebuscadas, em diferentes pesquisas realizadas pelo IPO. De uma forma geral, o raciocínio nasce com a seguinte premissa: “como está não pode mais ficar”. Esta é uma frase corriqueira e que pontua os debates da população sobre diferentes temas, da ação mais cotidiana fruto de um conflito social que denota injustiça até o debate sobre o noticiário nacional, envolvendo denúncias de corrupção ou de malversarão de recursos públicos.
O desdobramento do raciocínio ou do desejo de “como está não pode mais ficar” desencadeia na premissa de que “o certo precisa ser o certo” ou de que “o meio certo não dá mais para aguentar”. Diante das dicotomias e do “jeitinho brasileiro” que sempre fez a ponte entre o “certo e o errado”, entre o “justo e o injusto”, entre o “bem e o mal”, a população começa a indicar a necessidade de resgate da moralidade, de regramento e confiança nas relações sociais estabelecidas. O gaúcho conclama pelo resgate do “fio de bigode”.
Esta crise está formando incialmente um “embrião” de moralidade, tendo em vista que a população demanda características e princípios morais para a coletividade, terceirizando a responsabilidade para outrem. E a moral e a ética devem se cristalizar na conduta individual de cada cidadão, para se solidificar como princípio coletivo. E para se tornar “o bem comum”, este embrião deve ser “alimentado” pelo sentimento de comunidade e deve eclodir na participação política.
Diante desta tendência otimista de declínio do “jeitinho brasileiro”, poderemos “sonhar” com a chance da democracia “que temos” se transformar na democracia “que deveríamos ter”. Parafraseando o dito popular, “não há nada tão bom que não tenha algo de ruim e nada tão ruim que não tenha algo de bom!”
