Quando jornalistas tinham de saber apenas apurar e escrever, não necessariamente nessa ordem, e não necessariamente saber, havia batalhões de copidesques e revisores sempre prontos a invadir as trincheiras da ignorância alheia e fulminar os inimigos do vernáculo. Isso era bom porque mantinha os leitores a distância segura dos ataques ao idioma mátrio. Isso era ruim porque propiciava a arrogantes semi-analfabetos a permanência na clandestinidade. A excessiva autoconfiança é típica dos medíocres. Talentos indiscutíveis como Luis Fernando Verissimo, embora protagonistas de raras impropriedades, sempre atribuíram aos revisores sua parcela na qualidade do texto que chegava até as páginas depois de extenso processo industrial.
O computador e o figurino exigido de um profissional moderno implicaram a incorporação de uma miríade de novas tarefas. Além do manejo de um equipamento bem mais sofisticado do que uma máquina de escrever, o repórter também passou a editar, depois a palpitar na diagramação e, em casos radicais idealizados pelos patrões, a fotografar e a dirigir o carro da empresa. Aumentaram as tarefas e reduziu-se, em média, o tempo de preparo de uma reportagem. Por fim, sobraram escassos revisores nos jornais. Não é o caso das revistas que, sabiamente, ainda submetem tudo a eles. O português tem de ser equipamento de série em jornalistas. Todos deveriam ter o chamado “texto final”, pleonasmo destinado a informar que nem todos o têm.
Felizmente, os criadores de processadores de texto incluíram corretores gramaticais e ortográficos. Infelizmente, ainda não avançaram o bastante para melhorar o estilo. O principal problema continua sendo aquele entre o monitor e o teclado.
Anyway (quis fazer graça e o corretor já sublinhou a palavra, depois de querer me obrigar a colocar acento no Luis e no Verissimo), a internet nos fornece um recurso e nos impõe um compromisso. Erros impressos são para sempre. Erratas só entram na edição seguinte. Um site pode corrigir-se a qualquer tempo, e o leitor de internet tem o direito de exigir que o façamos. Escrever para sites pode levar a um relaxamento involuntário. No meu caso, basta ligar para o diligente Marcelo Oliveira, que coloca o texto na página da Coletiva, e em poucos segundos ele evitará que mais internautas tenham acesso a uma eventual asneira. Não me livra a barra diante de quem já leu, mas limita o número de consumidores lesados.
Dedicado a Henrique Erni Grawer
