Quase todas as grandes redações já assistiram à chegada do Homem Providencial. Não importa de onde venha, qual o tamanho do currículo ou do salário, ele desembarca com todas as respostas. Ele sabe o que funciona e o que não funciona em jornalismo, o que exatamente o leitor quer, quais os melhores enfoques para todas as melhores reportagens que serão feitas a partir daquele momento, baseadas nas melhores pautas que ele também tem, reforçadas por informações das melhores fontes, que são as dele. Basta seguir o que ele fala e tudo dará certo. O Homem Providencial só não faz o jornal (ou revista, ou programa etc.) sozinho porque o tempo é curto, e o dele mais ainda, uma vez que só ele sabe as respostas e, portanto, tem de ser consultado para tudo.
O Homem Providencial não precisa vir de longe, tampouco receber salários milionários. Muitas vezes ele já estava na redação, à espera da promoção a um cargo que o permitisse mostrar seus conhecimentos sobre jornalismo que, é claro, são todos os conhecimentos possíveis a um profissional impecável como ele. Quando se diz que a nova função “subiu à cabeça” de alguém, muitas vezes pode se estar cometendo a heresia de não identificar de imediato a assunção do Homem Providencial.
A contratação de um diretor de redação “de fora”, ou seja, que não pertencia aos quadros da redação, também não significa, necessariamente, a presença iminente do Homem Providencial. Abre parêntesis: é impossível falar desse assunto no Rio Grande do Sul sem uma referência a Augusto Nunes. Primeiro, porque ele sempre foi o primeiro a alertar para os perigos do Homem Providencial. Não citá-lo seria incorrer em uma espécie de plágio. Segundo, porque em dez anos de trabalho conjunto, incontáveis vezes o vi modificar uma decisão diante de argumentos consistentes. Eu próprio o questionei em muitas ocasiões, não corri qualquer risco por isso e ainda consegui fazê-lo reverter decisões importantes. Fecha parêntesis.
Mas nem sempre é fácil reconhecer o Homem Providencial.
Há, basicamente, cinco tipos de chefes:
* O que toma e anuncia as decisões sem consultar a equipe.
* O que toma as decisões e, antes de anunciá-la, consulta a equipe, mas não tem qualquer intenção de modificar o que já decidira.
* O que consulta a equipe antes de tomar as decisões, mas não leva em conta nada do que lhe foi dito e segue os próprios critérios.
* O que consulta a equipe antes de tomar as decisões e leva em conta as sugestões.
* O que orienta a equipe para que ela tome as próprias decisões.
O Homem Providencial poderá adotar qualquer uma das três primeiras alternativas, mas a primeira é a mais provável, porque uma das principais características do Homem Providencial é deixar claro, desde o primeiro discurso, que o interlocutor está diante do Homem Providencial, fato do qual é melhor não discordar. Em qualquer ofício ele é nocivo, mas em redações pode ser fatal. Quando se lida com produtos bem definidos como um par de sapatos ou uma lata de sardinhas em conserva, o Homem Providencial pode reprimir idéias que contribuiriam para a melhoria da qualidade ou o aumento do lucro, mas os sapatos continuarão sendo sapatos e as sardinhas continuarão sendo sardinhas.
Quando a mercadoria é a informação, ele pode causar estragos bem maiores. A premissa de ouvir todos os lados de uma questão começa dentro de casa. Se os profissionais não discutem as pautas antes de realizá-las, certamente o leitor já sai no prejuízo. Mas é melhor nunca dizer isso ao Homem Providencial. Até porque ele já sabe tudo que é importante saber.
Dedicado a César de Marchi
