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Deixem elas trabalharem

Por Patrícia Lapuente, para Coletiva.net

Fruto dos anos 90, com pai e avô gremistas fanáticos e com o Estádio Olímpico Monumental como vizinho: não é difícil inferir que fui uma criança tricolor gaúcha criada na casa da sua equipe do coração. O que eu não percebia na época, porém, é que eram raras as mulheres nas arquibancadas. O tempo passou, a paixão continuou a mesma, e aquela menina que sonhava desde os 11 anos em ser jornalista chegou ao semestre de pensar no tema do tão temido trabalho de conclusão de curso.

Minha primeira opção sempre foi abordar o raro trabalho das mulheres nas editorias esportivas – algo que percebi durante a adolescência ao não me reconhecer em quase nenhuma das futuras colegas de profissão em programas e textos esportivos. Contudo, em pleno 2015, não eram raras as monografias e artigos sobre esta temática. Foi então, durante uma provocação do então professor de rádio Filipe Gamba, que percebi a falta das jornalistas falando sobre futebol e outros esportes nas rádios. Mas afinal, por quê?

Com uma grande ajuda do meu querido e eterno mestre Tércio Saccol, construí minha narrativa e pesquisei a fundo sobre a temática, centrando nas três emissoras de rádio com maior audiência na época: Gaúcha, Guaíba e Grenal. Foram analisados os quesitos cultura gaúcha, tradição radiofônica em relação à voz, trajetória das mulheres na sociedade e no mercado de trabalho, além da presença das jornalistas em programas esportivos na televisão (em vista da imagem).  

Para além da parte teórica e de pesquisa em bibliografias, o que me deixou mais assustada foi quando comecei a fazer pesquisas. Entrevistei coordenadores de Esporte, mulheres que atuaram na área e as audiências feminina e masculina. Enquanto uma jornalista relatou ser proibida de participar das jornadas esportivas, 27% dos homens preferiam escutar sobre o assunto diante da presença masculina; 7% não escutariam uma mulher dando notícias ou emitindo opinião sobre futebol nas rádios; e 5% não acreditavam que uma jornalista possuia credibilidade para falar sobre o assunto.

Se os números me causaram espanto, as palavras foram angustiantes. “Não manjam, não adianta” e “Mulher não fala de futebol da forma como eu gosto de ouvir”, foram as respostas para a pergunta “Por que não escutaria uma mulher falando sobre futebol?”. Quando questionados por que quase não vemos mulheres trabalhando na área esportiva das rádios, dentre as 145 respostas estavam: “Não entendem nada. Algumas até acham que entendem, mas só acham mesmo” e “O público não vê a imagem da mulher, portanto não tem o que realmente lhe atrai ao ver uma mulher falando sobre futebol”. Porém, a maioria apontou como causas o machismo e preconceito intrínsecos na sociedade.                       

Há cinco anos, não havia mulheres trabalhando diretamente na reportagem das rádios pesquisadas. Todavia, uma repórter da TV Record realizava este trabalho na rádio Guaíba quando havia necessidade, duas colaboradoras da Gaúcha entravam no ar – sendo uma responsável pelo site e outra produtora -, enquanto na Grenal quem liderava era uma diretora, Marjana Vargas. Encerrei meu TCC com a conclusão de que, aos poucos, este panorama mudaria. E mudou – para a minha alegria e de tantas colegas e mulheres que lutam diariamente por mais espaço no mercado de trabalho e na sociedade.

Hoje, em 2020, há três repórteres na Guaíba, enquanto outras três atuam na produção esportiva. Em relação à Gaúcha, atualmente trabalham na área cinco profissionais, sendo uma delas produtora e repórter e outra realiza apenas reportagens. Inclusive, em 2019 Renata de Medeiros foi a primeira repórter de campo após nove décadas da emissora. Por fim, além de Marjana, a Grenal possui uma mulher na equipe para produzir e fazer reportagens tanto de campo e torcida.

Um avanço que pode até ser considerado pequeno, mas que significa muito para a classe. A luta, porém, não para. Até aqui, tivemos diversos casos de assédio nos estádios, a exemplo do que aconteceu com Laura Gross e Renata de Medeiros – o que gerou a criação do movimento #deixaelatrabalhar -, além de um episódio de machismo com a jornalista Eduarda Streb durante a transmissão de um dos programas mais antigos do rádio gaúcho, o Sala de Redação’.  Nesta semana da mulher, o que mais desejo é que sejam acontecimentos cada vez mais raros até, quem sabe, desaparecerem por completo. Uma utopia, alguns diriam, é verdade. Mas um grande anseio de uma eterna sonhadora.

 Patrícia Lapuente é jornalista e coordenadora de Comunicação de Coletiva.net 

 

 

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